O filme Som do Silêncio ou “silêncio da acessibilidade”?

porEquipe

O filme Som do Silêncio ou “silêncio da acessibilidade”?

Antes de fazer minhas reflexões sobre o filme, digo que chorei bastante por ser representado como usuário de implante coclear (IC), mas o filme foi realmente lindo por vários aspectos!

ATENÇÃO: vai ter spoilers nesse parágrafo! O final foi de chorar mesmo, por dois fatores: pelo fato de o surdo ter a vantagem de “acionar um botão off”, para apreciar o verdadeiro silêncio, quando precisamos ter momento como esse! Segundo, por existir uma possibilidade para a sociedade enxergar que o mundo pode ter outras perspectivas de paisagens e momentos; que ela possa abrir horizonte, vislumbrando como o mundo visual é mais do que você imagina!

Voltamos a minha visão, o ator Riz Ahmed, que fez o papel de Ruben, o ex-drogado e músico que perdeu a audição de repente, do dia para a noite, praticamente, foi excelente atuante!

Não cabe a crítica de falta de representatividade surda, pois o personagem tem que ser ouvinte para perder a audição subitamente; portanto, ele precisava primeiramente desempenhar o papel de ouvinte para, depois, ser ensurdecido totalmente, mas a identidade do personagem continua sendo a de um ouvinte, ou seja, ele se tornou um “surdo tardio”. E o ator criou exatamente o perfil para esse personagem.

Então, essa característica do personagem não é o meu caso, pois fiquei surdo com um ano e meio de idade, como sequela de meningite, e a minha vida de surdez profunda e severa bilateral foi praticamente uma vida inteira com surdez oralizada. Ou seja, a minha memória auditiva foi mais limitada do que a do personagem músico. O implante coclear faz você escutar “artificialmente” e é preciso praticar com apoio de fonoterapia, uma terapia de percepção auditiva para reaprender novos sons com esse dispositivo. O filme só mostrou que existe possibilidade de voltar a ouvir, nem sempre 100%, mas, sim, que esse dispositivo pode tornar um surdo mais próximo de ser um ouvinte para aqueles que queiram buscar uma nova audição. 

Então, fique claro que nem todo usuário de implante coclear é igual a ele, pois cada grau de surdez é um caso, pois há os que ouvem com vários tipos de frequência ou ouvem poucas frequências; uns ouvem sons estridentes, outros ouvem sons abafados ou ensurdecedores e outros não são candidatos ao implante coclear por não conseguirem se adaptar em razão da própria saúde. O caso dele é ouvir som abafado e estridente – descobri através da legenda descritiva em inglês. Então, para situação do personagem, foi bem frustrante, pois era músico! Imaginem um guitarrista sofrer acidente e perder a mão aí teria que se adaptar radicalmente a uma nova vida!

Agora, sobre a falta da legenda descritiva em português, nunca senti tanta falta! A descrição de som na legenda é essencial nesse filme, porque cada cena mostra o áudio do personagem, ouvindo o mundo dele como implantado. Confesso que fiquei bastante chateado porque queria muito identificar como é a sensação de Rubens voltando a escutar pós-implante, mostrando como a sociedade o enxerga!

É como rasgar as melhores páginas do livro de um escritor para os leitores escritores! Eu sinto como surdo e usuário de IC.

Nota-se cada vez mais a importância da legenda descritiva como uma ferramenta de acessibilidade importante para a comunidade da diversidade surda; e isso o filme provou muito mais do que necessário! Muito mais do que o filme Coringa que apresenta um personagem que tem afeto pseudobulbar – por exemplo, descontrole de riso ou choro; o que acontece quando há perda do sincronismo do que está acontecendo emocionalmente com a expressão facial da emoção do personagem Coringa. O telespectador surdo não compreende! O contexto do filme necessita da LEGENDA DESCRITIVA para saber se o personagem está sofrendo e rindo ao mesmo tempo.

Portanto, nós, surdos precisamos reclamar e mostrar às empresas de plataforma de streaming o que sentimos por sermos pessoas surdas ou ensurdecidas. Pois quem tem deficiência é pessoa mais adequada para enviar essas reclamações, com esclarecimentos, para a Prime Amazon, o Youtube ou a Google Play, pela falta de legenda descritiva. Assim, eles vão compreender que a acessibilidade digital precisa amadurecer mais.

Concluindo, o diretor conseguiu atingir uma enorme visibilidade: o mundo dos usuários de implante coclear. Um filme internacional e raríssimo e já concorrendo a 6 estatuetas de Oscar! Porém privilegiou aqueles surdos que necessitam ou já fizeram implante coclear, mas trouxe uma imagem segregacionista para comunidade dos usuários de língua de sinais. Isso causará um debate enorme dentro da diversidade surda, pois o personagem Ruben ficou totalmente isolado junto com os usuários de drogas e com os usuários da língua de sinais, em um casarão isolado no meio rural, uma situação totalmente segregacionista. Sem falar da namorada vocalista que o abandonou para viajar fazendo turnê, preferindo cantar sozinha sem Ruben, com o qual compunha, antes da surdez, uma banda, como um casal. Isso foi um ponto capacistista da personagem Lou.

A segregação sociocultural entre os usuários do implante coclear e os usuários da língua de sinais, tanto para surdos quanto os ouvintes, é evidenciada no filme. Não se está buscando culpados, mas se está apontando que a inclusão é possível! Falta educação inclusiva: surdos, convivendo com os ouvintes; um sistema de ensino que oferte intérprete de Libras: recursos de tecnologias assistivas; terapias e equipes multidisciplinares que atendam pessoas com deficiência; oferta de acessibilidade comunicacional, como também de acessibilidade atitudinal, arquitetônica e urbanística na área educacional.

Portanto, como vocês podem ver, as opções de acessibilidade digital a plataforma de streaming Prime Amazon mostrou que o filme não tem janela de língua de sinais, não tem audiodescrição para português, muito menos legenda descritiva para português. Deu para perceber que essa plataforma não contratou uma equipe de acessibilidade, o que inclui: audiodescritores, legendistas de LSE (Legenda para Surdos e Ensurdecidos, diferente de legendista tradicional!), intérpretes de língua de sinais, nem muito menos contratou consultores com deficiência! Foi uma imensa falta de acessibilidade e, se essa plataforma não foi planejada para atender acessibilidade plena, imaginem para o ensino educacional?

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